Guimarães Rosa e suas obras: um guia prático para quem quer começar
A obra de Guimarães Rosa é mais difícil do que parece à primeira vista. As pessoas falam dele como se fosse só o Grande Sertão: Veredas, mas isso é meio reducionista. Tem três livros principais que todo mundo deveria ler, cada um com um problema diferente quando você tenta entrar. O Grande Sertão, publicado em 1956, é o mais famoso. Foi o livro que mudou a gente entender o que era romance brasileiro. Antes dele, a gente tava mais pra literatura regionalista mesmo. Rosa pegou o sertão, os jagunços, as brigas, e transformou tudo numa coisa que é ao mesmo tempo real e completamente fora da realidade. O Riobaldo é o narrador, um ex-jagunço que tá contando sua vida pra um ouvinte silencioso que nem sempre aparece direito no texto.
Onde encontrar as obras de guimaraes rosa
Você consegue comprar a edição da Record, que é a mais comum, ou a Nova Fronteira, que tem uma coleção completa. A editora 34 também lança edições especiais às vezes. O importante é procurar edições que tenham o texto revisado, porque as primeiras tiragens tinham alguns problemas de digitação que foram corrigidos depois. Tem versão digital também, claro. A Amazon tem e-book do Grande Sertão, mas eu não recomendaria ler por aí se você não tiver experiência. A formatação fica errada às vezes, e o Rosa precisa de espaço na tela pra não perder a cabeça com os parágrafos gigantes.
A estrutura dos livros e como eles realmente funcionam
O Grande Sertão tem quase mil páginas. Não é um livro que você lê de uma vez só. Eu já tentei, e Terminei com dor de cabeça e sem ter entendido quase nada dos primeiros capítulos. O jeito é ler devagar, dois ou três capítulos por dia, e reler as partes que não fizerem sentido na primeira passagem. O Rosa não explica nada. Ele conta a história e deixa o leitor achar o que puder. O Corpo de Baile, de 1946, é uma coleção de contos. Tem "A Hora e a Vez de Viriato-Piva", "O Menino de Engenho", "A Imaginacao", entre outros. A maioria deles gira em torno de personagens do sertão, mas conto tem um problema diferente. Alguns são mais acessíveis, outros exigem que você pare e pense por cinco minutos antes de continuar.
O Sagarana, também de 1946, é a obra de estreia. Tem "O Cavalo e a Bruma", "O Passado e o Presente", "A Menina do Rio Abaixo". Esse livro é mais curto, mas não é mais fácil. O Rosa já estava fazendo coisas experimentais desde o início.
O que você precisa saber antes de começar a ler
Uma coisa que muita gente não percebe é que o Rosa usa um dialeto próprio. Não é apenas uma linguagem do sertão, é uma linguagem que ele inventou, misturando palavras do português rural com neologismos e estruturas que ele mesmo criou. Quando você lê "retalhar" no sentido que ele dá, ou "sertão", ou "diabura", precisa entender que cada palavra tem camadas de significado que o dicionário comum não mostra. Eu tive um problema específico com o Grande Sertão. Li pela primeira vez em 2018, e no capítulo 17 eu travou. O Riobaldo fala de coisas que parecemsem conexão clara, e eu não conseguia seguir a linha do tempo. Parei de ler, guardei o livro na prateleira por três meses, voltei e consegui passar daquela parte. O problema é que a narrativa não é linear, e o Rosaquebra a cronologia pra fazer o leitor sentir o que o personagem sente.
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A dica prática é: não tente entender tudo na primeira leitura. O Rosa quer que você sinta a história, não que você decore os detalhes. Leitura rápida não funciona aqui. O ideal é ler uma página por vez, parar, pensar, e só então continuar.
Os pontos fracos da obra
Tem coisa que o Rosa não faz bem, ou que pelo menos gera debate. A representação feminina é um problema. As mulheres nos livros dele são poucas e geralmente aparecem como objetos de desejo ou sofrimento, não como personagens com autonomia. Isso é evidente tanto no Grande Sertão quanto nos contos do Corpo de Baile. O ritmo também é um problema para muitos leitores. O Grande Sertão demora muito pra aconteceralgo de really importante nos primeiros centenas de páginas. Se você não tem paciência, pode desistir no meio. Eu já vi gente abandonar a leitura depois do capítulo 30, e sinceramente não posso culpar ninguém. É um livro que exige um tipo específico de disposição.
Outra limitação é a reedição. As versões mais baratas têm erros de digitação que confundem. Já li uma edição da Globo que tinha palavras trocadas em trechos importantes, o que muda completamente o sentido. Sempre verifique se a edição é a revisada ou a crítica, antes de comprar.
Como organizar a leitura
Se você nunca leu o Rosa, comece pelo Sagarana. É mais curto, mais acessível, e vai te dar uma ideia do estilo dele. Depois vá pro Corpo de Baile, escolhendo os contos que mais chamarem sua atenção. E por último, o Grande Sertão, que merece uma dedicação maior. Tem gente que recomenda ler o Grande Sertão primeiro, mas eu acho errado. Você precisa se acostumar com a linguagem antes de enfrentar o livro mais longo. Se você tentar o inverso, pode acabar desistindo de tudo.
Uma coisa prática: marque os capítulos no Grande Sertão. O livro é dividido em partes, e cada parte tem capítulos numerados. Anotar o número do capítulo ajuda a não se perder, especialmente nas relecturas. A primeira vez que li, anotei os capítulos importantes em um caderno. Na segunda vez, já sabia onde estava. O legado do Rosa é enorme. Influenciou escritores como Clarice Lispector, João Guimarães Rosa influenciou também escritores estrangeiros como John Updike, que traduziu parte do Grande Sertão. Mas ele também é difícil demais pra maioria dos leitores comuns. Isso não é necessariamente ruim, mas é algo que você precisa saber antes de escolher um dos livros dele.