Qual O Melhor Chocolate - Qual o melhor chocolate 70%? - Estadão
Qual o melhor chocolate 70%? - Estadão

O que define a qualidade real do chocolate

A maioria das pessoas julga chocolate pelo preço ou pela embalagem. Isso funciona mais ou menos no supermercado comum, mas quando você começa a comprar de fontes mais específicas ou tenta fazer uma avaliação séria, esse critério cai por terra rápido. O que realmente separa um chocolate decente de um que vale o investimento é a composição e o processamento. Vou ser direto: a grande maioria dos chocolates disponíveis no Brasil são abaixo do aceitável porque a fábrica cortou custos nos ingredientes e no tempo de conchagem.

Qual o melhor chocolate

Não existe uma resposta única, mas existe uma metodologia para chegar nela. O ponto de partida é olhar a lista de ingredientes. Se aparecer leite em pó, gordura vegetal hidrogenada, lecitina de soja em excesso ou qualquer coisa que não seja cacau, manteiga de cacau e açúcar, o produto já perdeu um ponto importante. Chocolate de verdade tem entre 50% e 85% de sólidos de cacau, dependendo do tipo, e a textura vem da moagem prolongada, não de aditivos. Na prática, eu avaliei talvez alguns centenas de amostras de chocolate em diferentes faixas de preço ao longo dos anos. O que aprendi de mais útil foi que o teor de cacau isoladamente não diz nada sobre qualidade. Já vi chocolates com 70% de cacau que eram ásperos e amargos demais porque a moagem foi insuficiente, e chocolates com 55% que pareciam seda porque passaram 72 horas em concha adequada. O processo de conchagem é onde a maior parte das fábricas brasileiras corta tempo. O padrão da indústria para um chocolate ao leite razoável é entre 48 e 72 horas. Para chocolate meio amargo, o mínimo aceitável é 48 horas. Abaixo disso, os sabores ficam indefinidos e a textura perde suavidade.

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Outro detalhe que pouca gente leva em conta é a origem do grão. Cacaueiros de diferentes regiões produzem sabores radicalmente distintos. Um chocolate feito com trinitário do Pará tem notas maisadas e menos amargas que um feito com forastero padrão de grandes produtoras. Isso não é charme de marketing. É diferença genética do grão mesmo. Procure pela indicação do tipo de cacau na embalagem ou peça informação ao fornecedor. A maioria não fornece, o que já é um sinal em si. Um problema prático que enfrentei recentemente foi a variação sazonal nos lotes de uma marca que eu usava regularmente para degustações. O chocolate mudava de textura e sabor de um lote para outro, mesmo mantendo a mesma porcentagem de cacau. A fábrica tinha trocado o fornecedor de manteiga de cacau sem comunicar. O workaround que usei foi entrar em contato direto com a produção, pedir a ficha técnica do lote atual e comparar com a ficha do lote anterior. Quando você lida com chocolate de forma séria, ter essas fichas técnicas é tão importante quanto saber a origem do grão. Sem elas, você está comprando no escuro.

O gosto pessoal é subjetivo, então a pergunta qual o melhor chocolate nunca terá uma resposta universal. Mas os critérios são os mesmos para qualquer avaliador: composição limpa, tempo adequado de conchagem, controle de tempera e, se possível, rastreabilidade da matéria-prima. Chocolates que atendem a esses quatro pontos estão na faixa de boa a excelente qualidade, independente do preço que cobram na prateleira. A parte chata é que muitos desses chocolates bons não aparecem em grandes redes. Você encontra importadores especializados, feiras de produto artesanal e algumas lojinhas de bairro que trazem marcas menores. Não é complicado, só exige um tempo a mais de busca. E se você quiser começar a avaliar por conta própria, compre três chocolates de faixas de preço diferentes com a mesma porcentagem de cacau e compare lado a lado. A diferença entre eles costuma ser gritante quando colocados juntos.