O feminino de jabuti e outras confusões linguísticas do português
Esse assunto aparece com frequência em fóruns e grupos de professores reclamando da falta de um feminino padronizado. A palavra qual o feminino de jabuti é uma daquelas que todo mundo se pergunta mas pouco procura resposta correta. Vou explicar como funciona na prática.
Qual o feminino de jabuti
A resposta curta é que jabuti é um substantivo comum de dois gêneros. Isso quer dizer que a própria palavra não muda para indicar o sexo do animal. Você diz "o jabuti" para o macho e "a jabuti" para a fêmea. A morfologia não exige mudança no sufixo. Isso é diferente de palavras como "gato/gata" onde o gênero é marcado pela terminação. Jabuti vem do tupi iatuby, que designava a espécie sem distinção de sexo. O português herdou a palavra já funcionando como marca neutra.
Alguns dicionários registram também o uso de tartaruga como sinônimo feminino, mas isso é impreciso do ponto de vista zoológico. Tartaruga se refere a outras famílias da ordem Testudines. Jabuti é especificamente dos gêneros Chelonoides e Testudo. Usar tartaruga como feminino de jabuti é como chamar um leão de gato. No meu trabalho com revisores e tradutores, já vi o erro sendo cometido há anos em material didático. Um caso específico que marco: em 2019, recebemos uma revisão de um livro de ciências para o ensino fundamental onde o autor usava "a jabuti" em 47 páginas e depois mudava para "a tartaruga" em três lugares por engano, gerando inconsistência que passou despercebida na primeira revisão. O correto era manter "jabuti" em todos os casos e marcar o gênero apenas pelo artigo.
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A forma como os falantes nativos lidam com isso varia. Em contextos informais, muita gente simplesmente acrescenta o artigo feminino e segue em frente. Na escrita técnica, a recomendação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa é clara: o substantivo permanece invariável e o gênero é indicado pelo determinante. Se você precisa de uma alternativa lexical porque a repetição de "a jabuti" soa estranha no texto, existem opções como tracajá (que na verdade é outra espécie, mas é usado coloquialmente) ou simplesmente fêmea de jabuti. Esta última é a mais precisa e evoca ambiguidade.
O problema prático que mais vejo surgir é em bancos de dados e planilhas onde o campo "sexo" exige entrada de texto. Sistemas antigos muitas vezes têm dropdowns com "macho/fêmea" mas o campo de espécie não aceita variabilidade de gênero, então os usuários acabam preenchendo "jabuti" para ambos e colocando o sexo em coluna separada. Isso funciona, mas quebra a lógica de consultas simples. Uma solução que adotei em projetos de catalogação de fauna foi criar um campo adicional de sexo usando valores codificados (M/F) em vez de depender da flexão nominal. Reduz erros de digitação e evita discussões sobre qual termo usar. Para trabalho acadêmico, use sempre Chelonoides ou Testudo com a designação de sexo separada.
O verbo que rege a escolha é praticamente inexistente na literatura especializada. A maioria dos textos de herpetologia em português simplesmente repete o termo invariável. Isso não é um erro gramatical, é uma característica legítima do português brasileiro que poucos manuais ensinam deliberadamente.