O que é e como funciona na prática
Curetagem é o ato de raspagem mecânica de um tecido ou cavidade do corpo usando um instrumento chamado cureta. Pode ser feito em vários lugares, mas o mais comum no Brasil é a curetagem uterina. Às vezes as pessoas também falam disso quando é aplicada na pele, como na curetagem de lesões, ou no ouvido, que é outra coisa totalmente diferente. O procedimento consiste em introduzir uma cureta — basicamente uma espécie de colher cirúrgica metálica, com ponta curva — e raspar a parede do órgão alvo. Quando é feito no útero, a ideia é remover o endométrio, seja porque há restos de abortamento, sangue retido, fragmentos de placenta após parto, ou para diagnosticar doenças como hiperplasia endometrial e câncer. O material removido sempre vai para exame anatomopatológico. Isso é padrão, não opção.
O que significa curetagem: explicação direta
A palavra vem do francês curette, que por sua vez veio do latim curare, que significa "limpar". Na prática médica brasileira, quando alguém pergunta o que significa curetagem, a resposta curta é: raspagem de tecidos com instrumento metálico. A resposta longa depende do contexto clínico. A curetagem uterina pode ser feita de duas formas principais: a simples, sem auxílio de imagem, e a guiada por ultrassom. A simples é mais rápida e barata, mas muito mais dependente da experiência do profissional. A guiada por USG oferece visão em tempo real do procedimento e reduz bastante o risco de perfuração uterina, especialmente em casos de útero retrovertido ou com adenomiose. O problema é que nem todos os hospitais públicos fazem com ultrassom, e essa limitação explica por que complicações ainda aparecem com frequência em certas regiões.
Na prática hospitalar, o tempo médio do procedimento varia de 5 a 15 minutos, dependendo do volume de material a ser removido e da anatomia do paciente. O pós-operatório imediato exige acompanhamento por algumas horas. Sangramento leve dura cerca de uma semana. Dores tipo cólica são normais e são controladas com anti-inflamatórios, mas se a dor persistir após 72 horas, aí precisa avaliar se há retenção de conteúdo ou infecção. Já tive um caso aqui na unidade em que uma paciente foi submetida a curetagem simples e voltou três dias depois com febre de 39°C e sangramento intenso. O ultrassom mostrou restos retidos no fundo uterino. O problema é que a curetagem simples, feita sem visualização, pode deixar fragmentos em locais de difícil acesso, especialmente em úteros com septos congênitos ou miomas submucosos. Nesse caso específico, repetimos o procedimento com guia ultrassonográfica e usamos dilatação cervical mais ampla, o que permitiu remissão completa dos sintomas. A diferença entre fazer com USG e fazer no escuro é exatamente esse tipo de cenário.
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Quando não funciona e quais são as limitações
Curetagem não é solução para tudo. Há situações em que o procedimento é contraindicado ou simplesmente ineficaz. Por exemplo, em casos de gravidez ectópica, curetagem uterina não resolve nada — o diagnóstico errado nessa hora já causou mortalidade. O tratamento correto é farmacológico com metotrexato ou cirurgia, dependendo do quadro. Outro cenário onde curetagem falha é em hiperplasia endometrial com atipia diagnosticada previamente: o tratamento de escolha é histerectomia, não raspagem, porque o risco de carcinoma endometrioides está acima de 40% nesses casos. Complicações possíveis incluem perfuração uterina, que ocorre em aproximadamente 1 a 2 por mil procedimentos, síndrome de Asherman — formação de aderências intrauterinas que podem causar infertilidade posterior, principalmente se o procedimento for repetido várias vezes —, infecção pélvica, e hemorragia. O risco de infertilidade por aderências aumenta significativamente se a curetagem for feita na fase secretora do ciclo ou se houver múltiplos procedimentos no mesmo útero.
Alternativas existem. A aspiração manual endouuterina, conhecida como MVA ou método Kucera, é menos invasiva que a curetagem com instrumento metálico e tem taxa de sucesso comparável para remoção de restos de abortamento. Em muitos lugares do SUS, o MVA já substituiu a curetagem como primeira linha para gestações até 12 semanas. A vantagem é que o MVA pode ser feito em consultório, sem anestesia geral, e causa menos trauma no endométrio. A desvantagem é que não permite obtenção de amostra histológica tão representativa quanto a curetagem com instrumento, o que pode ser um problema se a indicação for diagnóstica e não terapêutica. Outra opção é a histeroscopia diagnóstica e terapêutica. Permite visualizar diretamente a cavidade uterina e remover lesões de forma precisa, com muito menos risco de aderências. O custo é maior e a disponibilidade no SUS é limitada, então isso acaba sendo mais uma realidade dos serviços privados. Se você tem indicação de repetição de curetagem, discutir histeroscopia com o ginecologista é o caminho mais lógico.
O que fazer antes e depois
Antes do procedimento, o ideal é fazer um ultrassom pélvico para confirmar a indicação e mapear a anatomia uterina. Isso evita surpresas durante a cirurgia. Se houver suspeita de infecção ativa, o procedimento deve ser adiado e tratada a infecção primeiro, sob risco de sepse. O uso de misoprostol como pré-preparo para dilatação cervical está consolidado na literatura e reduz a necessidade de dilatação mecânica, diminuindo o risco de lesão do colo. Dosagem usual é 400 microgramas via vaginal ou sublingual, administrado de 3 a 12 horas antes do procedimento. Após a curetagem, sangue de cor vermelha-escura em quantidade semelhante a uma menstruação leve é esperado nos primeiros dias. Se o sangramento transbordar uma absorvente em menos de uma hora, se houver febre acima de 38°C, ou se ocorrere eliminação de tecido com odor fétido, procure atendimento médico imediatamente. Retorno sexual e uso de tampon devono ser evitados por pelo menos uma semana para reduzir o risco de infecção ascendente. A ovulação pode retornar em duas semanas, então contraceptione deve ser considerada desde então, especialmente se a intenção for evitar uma nova gravidez prematura.
O resultado anatomopatológico leva em média 7 a 14 dias. É fundamental que o paciente receba esse resultado e discuta com o médico. Em muitos casos, o laudo simplesmente confirma hiperplasia endometrial sem atipia, o que é bom. Mas pode revelar atipia, carcinoma, ou restos de concepção, e cada um desses achados muda completamente o manejo subsequente. Ignorar o resultado do exame é um erro comum que já vi acontecer repetidamente.