Perdendo uma avó é mais complicado do que dizem os livros
O luto pela minha avo começou de um jeito bem específico pra mim, e acho que o problema é que ninguém te prepara pra isso direito. Eu perdi a minha avó num domingo à noite, e na segunda-feira seguinte ainda tive que lidar com ligações telefônicas, familiares brigando por causa de herança, e aquela sensação estranha de que você deveria estar chorando o tempo todo, mas na verdade estava só exausto. Acho que a coisa mais difícil não é a ausência dela em si, mas sim a mudança no ritmo da sua vida. Você passa anos sabendo que tem aquele lugar na mesa de domingo, que ela vai mandar mensagens sem pontuação direita, e do nada esse cenário simplesmente deixa de existir. O primeiro mês foi o pior, porque você ainda espera receber uma ligação quando está chegando em casa.Como eu superei isso (e provavelmente vai depender de você)
Eu tentei manter a rotina o máximo possível no começo. Trabalhava, ia ao supermercado, ligava pra mãe pra saber se ela estava bem. Achei que isso fosse ajudar, mas na verdade era só adiar. O que funcionou foi aceitar que eu ia ter dias ruins e dias que pareciam normais, e tudo bem ser assim. Não precisa envergonhar-se de estar bem num dia e destruído no outro. Comecei a escrever coisas sobre ela. Não é uma terapia formal, mas anotar memórias, mesmo as absurdas, ajudou a transformar essa dor em algo mais concreto. Minha avó fazia um bolo de chocolate que era terrivelmente doce e eu nunca consegui reproduzir, então fui tentando. O resultado nunca ficou igual, mas o processo de procurar na memória o ingrediente exato que faltava era uma espécie de ritual.Dias depois do luto pela minha avo
Existem coisas que ninguém conta sobre o luto de avó. Uma delas é a culpa. Você sente culpa por estar vivo e feliz enquanto ela não está. Sente culpa por não ligar mais para ninguém da família porque não aguenta ouvir "ela gostaria tanto de ver você". Sente culpa por rir numa conversinha qualquer e depois se pegar pensando que não deveria. Outra é a confusão de papéis. De repente você é o mais novo que alguém pergunta "quem é" numa reunião de família. As pessoas mais velhas ficam do seu lado, e você percebe que a geração que te sustentava emocionalmente simplesmente se foi. É estranho, e não tem jeito bom de dizer isso.O que eu fiz foi tentar manter contato com os amigos dela. Eles contavam histórias que eu nunca tinha ouvido, e isso me deu uma versão dela que eu não conhecia. Minha avó tinha vinte anos e tinha ido morar sozinha numa cidade onde não conhecia ninguém. Ela era corajosa de um jeito que eu não imaginava. Isso mudou a forma como eu sentia a ausência dela.
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O que realmente ajuda (e o que não ajuda)
Não ajudei nada ficar isolado. Ficar em casa, não atender telefone, fingir que o mundo não existe. A tristeza vira algo pesado demais quando você não tem com quem dividir. Eu liguei pra um amigo uma vez e simplesmente disse que estava mal. Ele veio, sentou no meu sofá, e ficamos lá horas sem falar nada. Foi helpful.
Receitas dela também foram importantes. Eu colei um papel na geladeira com os ingredientes do bolo que ela fazia, das coisas que ela cozinhava nos domingos. Às vezes eu preparava e dava errado, mas o ato de cozinhar algo que ela amava era uma conexão física, tátil, que às vezes palavras não alcançam.O conselho que eu daria, se é que posso dar conselho sobre algo tão pessoal, é: não force um prazo. Você vai ouvir gente dizendo que em seis meses ou um ano você já deve estar superando. Isso é mentira. Cada pessoa tem seu tempo. O importante é não desistir de si mesmo no processo.