O que você precisa saber antes de procurar os livros do Suassuna
Ariano Suassuna escreveu teatro, mas seus textos são publicados como livros. Isso gera uma confusão comum: quem procura pelo nome livros de ariano suassuna geralmente espera encontrar romances ou contos, e quando chega na obra completa se depara com peças teatrais de formato bem específico. As edições mais usadas academicamente são as da Editora Universitária da UFPB, a da José Olympio (hoje incorporada à Record) e as publicações da Fundaj/Casa de Rui Barbosa para textos mais antigos. Cada uma tem suas particularidades. O Auto da Compadecida é o texto que todo mundo conhece, mas é só um dos muitos. A obra completa dele tem aproximadamente vinte livros entre teatro, poesia, crônicas, romances e ensaios, distribuídos em décadas de produção. Se você quer estudar Suassuna de forma séria, comece pela ordem cronológica das peças, não pela fama. O período mais denso é entre 1950 e 1970, quando ele escreveu o grosso do que hoje se encena no Brasil inteiro.
Como conseguir livros de ariano suassuna de forma prática
Aqui vai o caminho que eu uso quando preciso de uma edição confiável. A primeira opção é a Obra Completa lançada pela Livraria José Olympio, com prefácio de Carlos Alberto Faraco. São volumes encadernados, capa dura, com notas de rodapé que economizam tempo de pesquisa. O problema é o preço e a disponibilidade: às vezes leva semanas para achar em estoque. Eu já cheguei a pegar exemplares usados na Estante Virtual e funcionaram bem, desde que a numeração de página esteja intacta — sem isso, citá-los em trabalhos acadêmicos vira um problema real. Uma alternativa mais rápida é buscar nos repositórios digitais. O acervo da Universidade Federal da Paraíba disponibiliza versões escaneadas de algumas peças, e a Biblioteca Digital Brasileira de Textos Literários também concentra títulos esparsos. O detalhe é que a qualidade dos PDFs varia muito. Já me deparei com edições onde o texto continha caracteres corruptos nas marginais — especialmente em versos decassílabos com acentuação arcaica — e tive que cotejar com a versão impressa linha por linha. O workaround que eu adotei foi baixar dois arquivos diferentes e usar diff no terminal para identificar as divergências, o que reduziu o tempo de correção de horas para uns dez minutos.
Estrutura da obra de Suassuna
O teatro de Suassuna não segue a divisão clássica em atos e cenas da maneira como você vê em Sartre ou Ibsen. Ele trabalha com temps, que é uma unidade de ação inspirada no teatro medieval português e espanhol, misturada com a estrutura do auto flamengo e com a dinâmica do cordel. Uma peça inteira pode ter quatro ou cinco temps, e cada temp contém várias cenas. Isso confunde muita gente que está entrando agora. Entre as obras fundamentais estão: O Bom Burguês (1953), O Macávio (1955), A Falenda (1956), O Auto da Compadecida (1955, publicada em livro depois), O Romance do Falecido Operator (1966), O Casamento Seqüestrado (1967), A Estrela de Exu (1970), O Rei da Vela (não, essa é do Oswald de Andrade, cuidado com essa confusão), e O Sermão do Santo Esgoto (1975). Também há o ciclo do Bandido Rei, que reúne várias peças em torno da figura de Lampião, e os livros de poesia como A Escada do Príncipe e O Navio de Moçambique.
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O que ninguém conta sobre ler Suassuna
O primeiro problema é a linguagem. Suassuna escreve em português nordestino de início do século XX, com vocabulário que já está fora de uso, expressões populares que perderam sentido e referências a instituições coloniais — corregedoria, sesmarias, capitanias — que a maioria dos estudantes de São Paulo e do Sul não domina. Você não consegue ler O Sermão do Santo Esgoto sem consultar um glossário. Eu parei de tentar decifrar pelo contexto e passei a manter uma lista de anotações em um arquivo separado, o que reduziu meu tempo de leitura em cerca de sessenta por cento. O segundo ponto, menos óbvio, é que Suassuna não era só dramaturgo. Ele era jurista formado pela Faculdade de Direito do Recife, músico autodidata, compositor, poetas e teórico literário. Os ensaios dele, reunidos em Teatro, Problemas da Criação e outros volumes, explicam o projeto estético por trás das peças. Ignorar os ensaios e ir direto para as dramatúrgias produz uma leitura rasa. O Auto da Compadecida, lido sem o contexto da teoria suassuniana sobre o popular e o erudito, vira apenas uma peça engraçada, quando na verdade é um tratado teatral completo disfarçado de comédia popular.
Limitações e o que funciona menos
A principal limitação dos livros do Suassuna disponíveis hoje é a fragmentação editorial. Não existe uma coleção única, completa e acessível que reúna tudo em uma só prateleira. As edições mais recentes saíram de editoras diferentes, com formatações incompatíveis entre si. Para pesquisa acadêmica, isso é frustrante porque cada citação precisa ser conferida em sua fonte original — se você pegar um PDF pirata ou uma reimpressão caseira, os números de página podem não corresponder à edição canônica. Uma segunda limitação é que muitas das peças não foram escritas para serem apenas lidas. O teatro de Suassuna foi pensado para o palco, com indicações cênicas específicas, uso de música ao vivo, coreografia e linguagem gestual que o texto sozinho não transmite. Se o seu objetivo é encenar, ler o livro não substitui o ensaio. Eu tentei montar uma leitura encenada de A Falenda com alunos e descubri que as indicações de cena que o texto traz são insuficientes para guiar a montagem — precisei recorrer a registros de encenações anteriores e a entrevistas com o próprio Suassuna para preencher as lacunas.
Para quem quer uma alternativa mais direta ao texto integral, a edição crítica preparada pela UFPB é a mais confiável até hoje, mesmo sendo mais cara. Para quem só quer acessar os textos gratuitamente, os repositórios universitários funcionam, mas com a ressalva da qualidade variável dos arquivos digitais.