Escolhendo o produto certo
A primeira coisa que todo mundo erra é achar que "sem sulfato" significa que o shampoo não vai limpar. Isso não é verdade. O shampoo sem sulfato ainda tem surfactantes — só que são formulados com base em tensoativos mais suaves, como lauril glicosídeo, sacarídeo isetionato ou aminoácidos. A diferença é que eles não degradam a barreira cutânea do mesmo jeito que o lauril sulfato de sódio (SLS) e o laureth sulfato de sódio (SLES). Mas isso só vale se o produto for bem formulado. Produto mal formulado sem sulfato deixa o cabelo oleoso, sem espuma e com aspecto pesado em duas lavagens. Eu comecei a trabalhar com formulação capilar há uns anos e vi de tudo. Um caso que ficou marcado: um cliente chegou com o couro cabeludo irritado e os fios ressecados depois de trocar para um shampoo "natural" que na verdade tinha apenas reduzido o sulfato, mas não ajustou o sistema de condicionamento. O pH estava em 9,2. Sim, nove vírgula dois. A amônia residual do agente neutralizante usado na tinctura de capim-santo da formulação não tinha sido balanceada. Ele trocou o produto, mas o dano já estava feito — a cutícula inchava a cada lavagem e não fechava direito. A partir daí, passei a verificar sempre o pH antes de recomendar qualquer produto, especialmente os que se autointitulam suaves por simplesmente não terem sulfato.
lista de shampoo sem sulfato
Uma lista prática dos principais tensioativos que aparecem em shampoo sem sulfato: Coconut-derived: coco glucoside, sodium coco sulfate (sim, tem "sulfate" no nome mas é um derivado natural do coco, muito mais suave que o SLS de fonte petroquímica).
Aminoácido-based: sodium lauroyl glycinate, sodium cocoyl alaninate, disodium laureth sulfosuccinate. Outros comuns: decyl glucoside, lauryl glucoside, sodium methyl cocoyl taurate, sodium methyl lauroyl taurate.
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O que você vai ver na lista de ingredientes e evitar: sodium lauryl sulfate (SLS), ammonium lauryl sulfate (ALS), sodium laureth sulfate (SLES), ammonium laureth sulfate (ALES).
Como usar na prática
A forma como o shampoo sem sulfato funciona é diferente do convencional. Você não precisa de tanta quantidade, mas também não pode aplicar e enxaguar em cinco segundos. A técnica correta é: molhe bem o cabelo, coloque uma quantidade menor do que usaria com sulfato, massageie o couro cabeludo primeiro (não os fios), deixe agir por dois a três minutos e só então adicione água para formar a espuma. A espuma será menor, mas a limpeza ocorre durante o tempo de contato, não durante o esfregar. O problema que eu mais vejo é o acúmulo de silicones. Shampoo sem sulfato não remove polidimetilsiloxano (PDMS) nem dimethicone copolyol com eficiência. Se você usa silicone nos fios e troca para shampoo sem sulfato sem fazer uma limpeza profunda de vez em quando, o silicone vai se acumulando. Meus clientes que tinham esse problema começaram a usar um shampoo quelante uma vez por mês — quelantes como EDTA dissódico e ácidos hidroxi carboxílicos removem não só silicone como também minerais da água dura. A água com alta concentração de cálcio e magnésio reage com os surfactantes e forma uma película cinzenta no fio. Isso é especialmente relevante em cidades como São Paulo, onde a água tem dureza variável dependendo do bairro.
Quem deve e quem não deve usar
Shampoo sem sulfato é indicado para cabelos tratados quimicamente (alisamentos, tinturas, caiazinas), para pessoas com couro cabeludo sensível ou propenso a dermatite seborreica, e para quem usa produtos com alta concentração de silicones não solúveis em água. Não é indicado para quem tem couro cabeludo extremamente oleoso e não quer fazer nenhuma adaptação — a transição pode levar de duas a quatro semanas e, durante esse período, o cabelo pode parecer sujo. O grande ponto cego que as marcas não contam é que a transição não é igual para todos. Eu já vi pessoas com tipo 3A mudarem e não terem problema nenhum. Já vi outras com tipo 2C que passaram cinco semanas com o cabelo parecendo seco demais porque o surfactante escolhido não removía o resíduo de manteiga de karité do condicionador que ela usava. A solução foi alternar: um dia shampoo sem sulfato, outro dia um shampoo com baixo teor de SLES (cerca de 5%) para fazer a limpeza mais profunda, depois voltar ao sem sulfato. Esse sistema de intercalação resolveu o problema dela sem comprometer a saúde do couro cabeludo.
Outra dica pouco divulgada: a temperatura da água importa. Água muito quente abre a cutícula e faz com que os surfactantes suaves não consigam fazer a limpeza adequada na superfície do fio. Água morna ou fria é melhor para shampoo sem sulfato porque mantém a cutícula mais fechada e permite que os tensoativos mais brandos atuem na camada mais superficial sem penetrar demais e causar frizz. Se você está começando agora, a recomendação é simples: escolha um produto com pH entre 4,5 e 5,5, verifique se a lista de ingredientes não tem SLS ou SLES, e teste por pelo menos três semanas antes de concluir que o produto "não funciona". A maioria das reclamações de shampoo sem sulfato vem de pessoas que desistiram na primeira semana, quando o cabelo ainda não adaptou a produção de sebo natural.