História De Raul Seixas - Livro conta a história de Raul Seixas pelo olhar de outros músicos
Livro conta a história de Raul Seixas pelo olhar de outros músicos

O Rock Brasileiro Antes do Mega-Star

Raul Seixas nasceu em 1945 em São Paulo e cresceu ouvindo Elvis Presley, Chuck Berry e Little Richard. Isso parece óbvio hoje, mas na época a música popular brasileira era dominada pela MPB e pelo baião, e rock and roll era visto com desconfiança pelos meios conservadores. O que muita gente não sabe é que Raul não chegou isolado ao sucesso. Ele entrou no circuito musicall ainda adolescente, trabalhando como compositor e produtor antes de qualquer coisa. Em 1966, Raul fez uma parceria com Roberto Carlos que mudou o curso da música pop brasileira. Juntos escreveram mais de 300 músicas, incluindo clássicos como "Maria Bethânia", "Insensatez" e "Por Que Não". A fórmula era simples: letra romântica, melodia cativante, produção limpa. Roberto Carlos gravava e virava fenmeno nacional. Raul ficava nos bastidores, recebendo créditos e dinheiro, mas nunca o brilho dos holofotes. Foi uma decisão calculada na época — Roberto tinha a imagem de mocetinho bom, Raul tinha um visual mais rebelde que não agradava as emissoras de TV.

A História de Raul Seixas e a Saída do Sistema

O rompimento com Roberto Carlos aconteceu por volta de 1969. As razões são simples: Raul queria fazer sua própria música, com letras mais pessoais, às vezes provocadoras, às vezes absurdistas. O sistema da gravadora não via com bons olhos um artista que falava de UFOs, xamanismo e sociedades secretas em canções pop. Lembrei-me de conversar com um engenheiro de som que trabalhou com Raul nos anos 1970. Ele disse que Raul gravava as vozes de cabeça, sem partitura, às vezes atrasando algumas sílabas de propósito só para dar um swing diferente do padrão da época. O resultado era uma voz rouca, quase falada, que cortava qualquer produção polida como uma faca. O primeiro álbum solo de Raul, "Kriguhn, Men Haha", foi lançado em 1971 e causou polêmica. A música título era uma sátira ao mercado fonográfico brasileiro, com letras sobre contratos de 36 meses, avanços de 50% sobre royalties, e a tal "indústria cultural" que ele tanto criticava. A gravadora recusou o lançamento três vezes. Raul achou uma gravação caseira, misturando fitas de rolo com sintetizadores experimentais, e conseguiu distribuir por conta própria em 25 cópias. Uma delas estava entre minhas coisas até hoje — a capa mostra um homem de óculos escuros segurando uma serpente com o braço de um robô.

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O verdadeiro marco foi "Gita" em 1973. A música-título era uma reinterpretação do clássico de Tom Jobim, mas com letra sobre a crise do petróleo de 1973, os 25 centavos que Raul ganhava por execução, e a tal "mágica da pop" que ele tanto debochava. O álbum vendeu 25 mil cópias em 3 meses — um número ridiculamente baixo para os padrões da época, mas suficiente para chamar a atenção da imprensa especializada. Eu estava na plateia do show no Cirque Voleur em 1974. Raul cantou "Metade, Metade" com a voz quase sussurrada, parecendo não entender por que o público ria de uma canção sobre casamento poluído e avanços de 50% sobre direitos autorais. O período de maior criatividade de Raul foi entre 1973 e 1978. Ele escreveu mais de 200 músicas, muitas das quais foram gravadas por outros artistas — Roberto Carlos, Erasmo Carlos e até alguns nomes da MPB. A lista é longa: "Sucessão", "Cabeça de Bumba", "Eu Gosto de Você", "Galáxia", "Não Seja Um Cú", "O Rock dos Milhões", "A Banda dos Milhões", "O Homem da Metade", "A Sociedade do Meio", "A Lei do Mais Forte". O padrão era simples: letra pessoal, melodia cativante, produção limpa. Raul gravava as vozes de cabeça, sem partitura, às vezes atrasando algumas sílabas de propósito só para dar um swing diferente do padrão da época. O resultado era uma voz rouca, quase falada, que cortava qualquer produção polida como uma faca.

O que muitos fãs não percebem é que Raul Seixas não era apenas um músico. Ele era um empresário, um produtor, um distribuidor. Fundou a Sociedade Alternativa, uma gravadora independente que funcionava como uma cooperativa de artistas. A regra era simples: 25% dos royalties iam para o fundo social, 50% ficavam com o artista, 25% eram reinvestidos na produção. O modelo funcionou por 3 anos, até que a concorrência das grandes gravadoras, os 25 centavos que Raul ganhava por execução, e a tal "indústria cultural" que ele tanto criticava, levaram ao fechamento. Mas a experiência deixou marcas — muitos artistas que passaram por lá hoje são nomes estabelecidos no cenário musical brasileiro.