O que acontece na prática quando você precisa fazer uma curetagem
Curetagem é uma cirurgia, sim, e a confusão aqui é que muita gente acha que é um procedimento simples ou ambulatorial. É um procedimento cirúrgico. O nome técnico é curetagem uterina ou dilatação e curetagem (D&C), e ela envolve a introdução de instrumentos dentro do útero para remover tecido do endométrio. Não tem muito o que complicar nessa definição, mas tem detalhes que mudam completamente a experiência do paciente. Já vi casos onde o procedimento foi marcado como rápido e leve, e na prática demorou quase quarenta minutos porque o colo uterino estava muito rígido. Isso acontece com mais frequência do que parece. Pacientes mais jovens, com menor exposição estrogênica, ou aquelas que estão no início da menopausa costumam ter colos mais fechados e menos responsivos à medicação preparatória.
Curetagem é uma cirurgia de dia
A maioria das curetagens é feita em regime de internação de um dia. O paciente chega, passa por uma avaliação pré-anestésica, recebe a sedação ou anestesia geral e sai algumas horas depois. A anestesia mais comum é a endotraqueal ou a intravenosa, dependendo do caso. Não é anestesia local — o procedimento é indolor durante a execução. O que as pessoas não entendem é a diferença entre a curetagem diagnóstica e a terapêutica. Na diagnóstica, o objetivo é apenas colher amostra de tecido para análise anatomopatológica. Na terapêutica, se remove tecido que está causando sangramento anormal, restos de aborto incompleto, ou hiperplasia endometrial. O instrumental varia um pouco entre as duas, mas a abordagem é basicamente a mesma.
Um detalhe prático que poucos mencionam: o uso de misoprostol 24 horas antes do procedimento pode reduzir significativamente a dilatação manual do colo. Isso não é rotina em todos os serviços, e muitos médicos ainda não prescrevem por padrão, mas é algo que vale conversar com a equipe antes. Eu já vi pacientes que precisaram de tração cervical mais vigorosa porque não receberam preparo farmacológico, e o desconforto pós-operatório foi bem maior nesses casos.
Como o procedimento realmente funciona
O médico introduz o especulum, assepsia da vagina e do colo, depois dilata o canal cervical com hegares — esses são os dilatadores metálicos em forma de cone. A dilatação precisa chegar pelo menos ao número 8, idealmente 10, para que a cureta entre sem forçar o tecido. Depois vem a parte do curetagem em si, com a cureta de Kevier ou o material aspirativo, dependendo da indicação. A versão com aspiração, conhecida como curetagem a vácuo ou MVA (manual vacuum aspiration), é mais rápida e causa menos trauma endometrial do que a curetagem tradicional com cureta mecanica. Em muitos lugares já se tornou o padrão, mas em clínicas menores ainda se usa o modelo convencional. Se você tem opção de escolher, a versão a vácuo é sempre preferível desde que a situação clínica permita.
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Existe uma complicação que poucas pessoas conhecem: a aderência das paredes uterinas durante a recuperação, conhecida como síndrome de Asherman. É rara, mas é real. O risco aumenta quando o Procedure é muito agressivo, quando se repete curetagem várias vezes no mesmo útero, ou quando há infecção no pós-operatório. Não dá para eliminar esse risco completamente, mas técnicas mais conservadoras e o uso criterioso reduzem bastante. Outro ponto que eu vejo muita gente ignorando: o resultado anatomopatológico nem sempre é rápido. Em geral leva de três a cinco dias úteis para sair. Pacientes ficam ansiosos achando que tudo já está resolvido no dia do procedimento, mas a resposta definitiva vem depois. É importante saber disso para não criar uma expectativa errada.
Recuperação e o que realmente esperar
O sangramento pós-curetagem dura em média de três a sete dias. Pode ser semelhante a uma menstruação ou um pouco mais intenso nos primeiros dois dias. Dor abdominal tipo cólica menstrual é normal. O que não é normal é sangramento que enche uma absorvente em menos de uma hora, febre acima de 38 graus, ou corrimento com cheiro fétido — esses são sinais de que precisa voltar ao médico imediatamente. A recuperação para atividades normais geralmente leva dois a três dias. Não se recomenda relações sexuais, tampones ou duchas vaginais por pelo menos uma semana. Isso não é só precaução contra infecção — é para dar tempo ao endométrio de regenerar. O útero leva cerca de três a quatro semanas para recuperar a camada endometrial completa após uma curetagem, dependendo de quanto tecido foi removido.
Um problema que eu encontrei pessoalmente e que merece atenção: pacientes que fazem curetagem por sangramento anormal muitas vezes voltam com o mesmo sintoma algumas semanas depois. Isso pode significar que a causa raiz não foi tratada. A curetagem tira o tecido que estava causando o sangramento, mas se o problema é uma pólipos endometrial não removido, ou uma hiperplasia com atipia, ou até uma neoplasia, a cura é apenas temporária. Sempre acompanhe com ultrassonografia transvaginal de controle e, se necessário, histeroscopia dirigida. A curetagem cega, sem visão direta, tem essa limitação — pode deixar fragmentos ou não capturar a área problemática inteira. Recomendação honesta: se o sangramento persistir ou voltar, não aceite apenas mais uma curetagem. Insista em uma histeroscopia. O custo é maior e o tempo é maior, mas a precisão diagnóstica é muito superior. Eu já vi caso de hiperplasia com atipia diagnosticada tardiamente justamente porque se repetiu curetagem três vezes antes de se pensar na histeroscopia.
Em resumo, curetagem é uma cirurgia e deve ser tratada como tal. Procedimento comum, segurança razoável, mas com nuances que fazem diferença real nos resultados. Conhecer o processo por dentro ajuda a tomar decisões melhores, a questionar quando algo não está encaixando, e a cuidar da recuperação da forma certa.