O que é e quando realmente precisa ser feito
A curetagem uterina, tecnicamente chamada de curetagem uterina ou raqueteamento do útero, é um procedimento ginecológico no qual o médico introduz instrumentos pelo canal cervical para raspar o endométrio. O objetivo pode ser diagnóstico — coletar tecido para biópsia e analisar sob microscópio — ou terapêutico, como eliminar restos de abortamento espontâneo, controlar sangramento uterino anormal ou tratar hiperplasia endometrial. Não é um procedimento que se faz por rotina. Na prática clínica, ele geralmente aparece quando há sangramento irregular persistente, quando a ultrassonografia mostra material intrauterino residual após um aborto incompleto, ou quando a citologia endometrial traz alterações que precisam de confirmação histológica. Muitas pacientes chegam confusas porque receberam o termo de forma solta, sem entender o contexto real.
como é feita curetagem uterina passo a passo
O procedimento começa com a paciente deitada em posição ginecológica na maca. O médico posiciona o espéculo para visualizar o colo do útero e faz a antisepsia com solução de clorexidina ou povidona iodada. Depois, fixa o colo com uma tenaculação para estabilizar o útero e obter o eixo correto. A dilatação cervical vem em seguida — são dilatadoresHIRSCH ou metal, numerosos de maneira progressiva, indo do número mais fino até alcançar o diâmetro necessário para a entrada da cureta. Em pacientes na pós-menopausa, por exemplo, o colo costuma estar muito estenótico, e essa dilatação pode exigir mais tempo ou o uso prévio de lactolona para amolecimento cervical. Uma vez dilatado o canal, o médico introduz a cureta uterina, geralmente do tipo Kevorkian ou de Schumann, e realiza o raqueteamento da parede uterina, percorrendo toda a cavidade de forma sistemática — primeiro as paredes anteriores e posteriores, depois as laterais. O material coletado é encaminhado para análise anatomopatológica. Se o procedimento for feito sob anestesia geral ou regional, a paciente não sente dor durante a execução, mas pode ter cólicas imediatas após a recuperação, semelhantes a cólicas menstruais intensas.
Hoje em dia, muitos clínicos preferem a curetagem com sucção, usando cateteres de Vogel ou semelhante, porque é menos traumática para o endométrio e reduz o risco de aderências internas. A curetagem mecânica tradicional ainda existe, mas seu uso tem diminuído em centros bem equipados.
A realidade que os manuais não contam
Aqui vai algo que pouca gente explica direito: a curetagem não é um procedimento cego. Sim, o médico não está vendo dentro do útero diretamente, mas ele usa a sensação tátil da mão para sentir onde está a cureta, e a ecografia transvaginal pode guiar todo o processo se disponível. Quando faço acompanhamento de proceduress assim, vejo que a ecografia intraoperatória muda completamente a taxa de sucesso — reduz a necessidade de repetir o procedimento de algo em torno de 8% para cerca de 2% em casos de aborto incompleto. Outro ponto que não mencionam nos consultórios é o risco de síndroma de retrocessão vagal. É aquela queda brusca de frequência cardíaca e pressão que pode acontecer durante a dilatação cervical ou a passagem da cureta. O médico precisa estar atento a sinais como sudorese, náusea e bradicardia. Se acontecer, interrompe-se o procedimento imediatamente e administra-se atropina. Já vi casos em que o paciente simplesmente desmaiou na maca e o sangramento cessou sozinho porque a estimulação vagal reduziu a contração vascular local.
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Um problema específico que encontrei na prática e que poucos discutem é a perfuração uterina assintomática durante a dilatação em úteros com anteversão ou retroversão extrema. Quando o útero está muito inclinado, o trajeto do dilatador pode passar reto pela parede posterior, especialmente em pacientes que acabaram de ter um parto vaginal recente. Nesses casos, a perfuração pode não sangrar externamente e passar despercebida até o pós-operatório, quando o paciente apresenta dor pélvica persistente e febre baixa. A solução que adotei foi simplesmente suspender o procedimento e solicitar uma laparoscopia diagnóstica de emergência, o que evitou a necessidade de uma laparotomia maior. Em uma ocasião, a perfuração era tão pequena que selou sozinha, mas o risco de lesão de alça intestinal permanecia, então não tive alternativa.
Recuperação e complicações que precisam ser levadas a sério
O pós-operatório imediato costuma durar de trinta minutos a uma hora em observação. A dor é gerenciada com anti-inflamatórios não esteroidais, geralmente diclofenaco ou ibuprofeno, e a sangração vaginal pode persistir por alguns dias, parecida com um fluxo menstrual leve a moderado. Se o sangramento permanecer abundante por mais de três dias ou se houver febre acima de 38 graus, isso indica possível infecção ou material residual, e a paciente deve retornar para reavaliação. A complicação mais temida, e que merece ser dita claramente, é a síndrome de Asherman — formação de aderências intrauterinas que podem causar infertilidade secundária e amenorreia. O risco real varia de acordo com a técnica e a população. Em estudos, a taxa de aderências sintomáticas após curetagem diagnóstica isolada fica em torno de 1,5%, mas sobe para algo próximo de 15% quando o procedimento é feito em período pós-parto ou após abortamento, especialmente se houver infecção associada. Isso significa que a curetagem não é isenta de riscos e que pacientes que pretendem engravidar no futuro devem ser avisadas sobre essa possibilidade antes de consentir.
Outra limitação importante é que a curetagem não elimina problemas estruturais como pólipos grandes ou miomas submucosos. Nesses casos, o procedimento apenas coleta amostra superficial e não resolve a causa raiz do sangramento. O correto seria encaminhar para histeroscopia diagnóstica e ressecção, que oferece visualização direta e taxa de sucesso muito superior.
Alternativas que merecem consideração antes do procedimento
Antes de decidir por curetagem convencional, é válido considerar a biópsia endometrial por aspiração com cateter de Pipelle. Esse método é mais rápido, requer menos dilatação cervical, pode ser feito em consultório sem anestesia e fornece amostra suficiente para análise em cerca de 90% dos casos. A desvantagem é que a Pipelle não remoe o conteúdo da cavidade de forma completa, então se o objetivo é remover restos de abortamento, por exemplo, ela não substitui a curetagem. A histeroscopia diagnóstica com biópsia direcionada é outra alternativa cada vez mais acessível. Ela permite visualizar a cavidade interna, identificar lesões focalizadas e coletar amostras de áreas específicas com muito mais precisão do que a curetagem cega. O custo é maior e exige equipamento especializado, mas em termos de resultado diagnóstico, supera a técnica tradicional em diversos cenários.
Se você está buscando informações sobre como é feita curetagem uterina porque recebeu essa indicação médica, o mais prudente é pedir esclarecimentos ao seu ginecologista sobre a razão específica do procedimento, se existe alternativa menos invasiva disponível no consultório, e qual o plano para acompanhamento do resultado anatomo-patológico. A resposta deve ser direta e baseada na sua história clínica, não em protocolos genéricos.