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Como entender e usar botas de trilha impermeavel na pratica

A maioria das pessoas compra uma bota com membrana e espera que nunca mais molhe os pés. Isso não funciona assim. A impermeabilidade tem um limite físico que a água vence com facilidade se o terreno for longo o suficiente, ou se a chuva bater de um angulo errado. Entender isso antes de entrar na trilha evita muita bolha e muita frustração.

A membrana nao e escudo contra tudo

As principais marcas usam polytetrafluoroethylene expandido, conhecido pelo nome comercial GORE-TEX, mas existem versões de eVent, Sympatex e outras membranas de poliuretano. Todas funcionam no mesmo principio basico: microperm e uma tela de politetrafluoroethylene com poros de aproximadamente 0,2 micrometros. A gota d'agua liquida e muito maior que esse tamanho, entao nao penetra. O vapor de suor e menor, entao consegue sair. O problema real aparece em tres situacoes especificas. A primeira e quando a agua fica em contato prolongado com o Cano da bota. Um riacho raso de vinte centimetros atravessado varias vezes ao longo de uma caminhada de quatro horas vai, inevitavelmente, vencer a membrana. A segunda situacao e sujeira oleosa ou barro. Particulas de argila entopem os poros da membrana pela parte externa, reduzindo a capacidade de respirabilidade em ate 40 por cento, segundo testes que ja vi em laboratorio independente. A terceira situacao e o calcanhar soltando quando se caminha descendo pendencas. A bota flexiona no ponto certo, a membrana acompanha, mas a agua entra por capilaridade pela abertura do Cano antes mesmo de togar o peito do pes.

Eu pessoalmente aprendi isso na trilha do Caparaó, numa descida de pedras com musgo durante chuva fina mas constante. Pensei que estivesse protegido porque a bota era nova e a membrana estava intacta. Em duas horas, os meias de trekking estavam encharcados. O problema nao era a membrana falhando. Era a propria estrutura da bota: a cano curto nao cobria o tornozelo o suficiente para impedir que a agua corresse pela perna e entrasse pela abertura superior. Troquei a estrategia na volta: calcou uma meia reserva seca dentro do calcador, prendeu a barra da calca por fora do Cano e comecei a fazer passes curtos em vez de pisadas longas. A entrada de agua reduziu drasticamente apos esse ajuste.

Escolhendo o par certo para o tipo de trilha

O primeiro erro comum e comprar uma bota alta para trilhas secas. Bota alta significa mais peso, mais aquecimento, mais chances de suor acumulado dentro da bota. Se sua trilha principal tem solo drenado e apenas pequenos crossing de riachos ocasionais, uma shoe de trilha com membrana leve resolve melhor. O ganho de mobilidade no tornozelo compensa qualquer perda percetivel de protecao contra agua rasa. Para trilhas com travessias frequentes de riachos, lama profunda e condicoes de chuva persistente, a bota alta com membrana continua sendo a opcao mais adequada, mas ai vale a pena investir em modelos que tenham reforco na biqueira e um sistema de fechamento que permita ajustar a tensao perto do Cano. O ajuste correto impede que detritos entrem e tambem reduz o espaco onde a agua pode se acumular internamente. Marcas como La Sportiva, Salomon, Lowa e Scarpa tem linhas adequadas, mas o ajuste individual conta mais que a marca em si.

Um detalhe que pouca gente leva em conta e a largura do peito do pes. Trilha molhada incha os pés. Um modelo que entra perfeito seco pode ficar apertado demais depois de tres horas de caminhada com a membrana ativa. Deixa folga de meio numero no maximo, mas nunca comprei duas medidas maiores so por essa razao, porque isso desestabiliza o suporte do tornozelo.

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Manutencao que realmente preserva a impermeabilidade

A maioria dos tutorial na internet recomenda lavar com sabão neutro e secar perto do fogão ou do aquecedor. Isso estraga a cola e a membrana. O metodo correto e limpar com escova macia e agua corrente, tirar o cadarço e a palmilha, deixar secar em local ventilado longe de fonte de calor direto. Isso leva de vinte e quatro a quarenta e oito horas, dependendo da umidade ambiental. Otratrimonio periodico com produto hydrophobic e necessario, mas nao substitui a limpeza mecanica. Aplicar spray repelente em bota suja de barro so cria uma camada desigual que pode atrapalhar a respirabilidade. Limpe primeiro, seque completamente, depois aplique o tratamento de acordo com as instrucoes do fabricante. Um spray como o da Nikwax ou Grangers rende para tres ou quatro aplicacoes em um par, e cada aplicacao restaura cerca de 60 a 70 por cento da capacidade original de repellencia da superficie exterior.

Ha um ponto que quase todo mundo ignora: a costura. Mesmo com membrana, as costuras sao pontos de entrada potencial. Fabricantes selam essas costuras com fita termocolante, mas essa camada pode desgastar com o tempo. Se voce notar qualquer_descoloracao_ ou brilho diferente no interior do Cano perto das costuras, a resistencia a agua ali ja está comprometida. Nao adianta aplicar mais impermeabilizante superficial nesse caso. O problema e estrutural.

Quando botas de trilha impermeavel simplesmente nao valem a pena

Se voce faz trilhas em climas secos com temperaturas acima de 25 graus Celsius, a membrana vai reter mais suor do que proteger de agua externa. Nesse cenrio, uma bota respiravel sem membrana, ou melhor ainda um sapato de trilha de malha aberta, oferece conforto significativamente maior e menor risco de bolha por umidade interna. A membrana é uma solução para problemas de agua de fora, nao uma solução magica para conforto geral. Tambem nao faz sentido usar bota impermeavel em trilhas de alta montanha com neve compacta e gelo. A membrana nao impede a entrada de neve derretida, e o frio extremo congela a propria membrana, perdendo-se a capacidade de respirabilidade completamente. Nesses casos, botas de alpino com botas de cano alto e permeabilidade zero, feitas para condiçoes extremas, sao mais indicadas, ainda que sejam muito mais pesadas e caras.

O custo tambem deve ser considerado. Um par de botas de trilha impermeavel de boa qualidade varia entre quatrocentos e mil reais, dependendo da marca e do modelo. Se voce usa essas botas apenas duas ou tres vezes por ano, o investimento pode nao valer a pena em relacao a um bom par de shoes de trilha versateis com meias de trekking de secagem rapida. A combinacao shoes + meias adequadas resolve 80 por cento dos cenarios que as pessoas imaginam que precisam de bota impermeavel.

Configuracao pratica para a primeira trilha com botas novas

Antes de depender da bota em uma caminhada longa, faca um teste de dois a tres quilometros em terreno variado. Verifique se o calcanhar nao sobe mais do que cinco milimetros durante a passada, se os dedos tem espaco para mover levemente quando o pe desce, e se o cadarço permite ajustar a tensao de forma diferenciada: mais frouxo no peito do pes, mais firme no tornozelo. Isso simples ajuste de tensao muda drasticamente a quantidade de agua que entra pela abertura superior durante descidas molhadas. Leve sempre um saco plastico com um par de meias secas na mochila. Meias de lã merino ou sinteticas de trekking secam mais rapido do que algodão, mas nenhuma meia seca de verdade em questao de minutos quando encharca. O saco plastico serve tanto para guardar as meias molhadas quanto para fazer uma barreira temporaria se a bota perder a impermeabilidade no meio do caminho. Nao é romantico, mas funciona.