O que realmente acontece quando você liga um aparelho desses
Vou direto ao ponto. Ar de janela quente e frio é basicamente um split portátil na sua parede. O mesmo princípio de bomba de calor que usamos em sistemas residenciais maiores, só que empacotado num gabinete de chapa de aço galvanizado projetado pra caber entre duas caixilhos de janela. A parte fria é trivial — ciclo reversível de compressão, evaporador, condensador, ventiladores. A parte quente é onde a maioria das pessoas se confunde. Na verdade, ele não produz calor do nada. Ele transfere o calor de fora pra dentro quando no modo quente. Isso significa que, em dias muito gelados, como tipo 4 ou 5 graus Celsius, o aparelho vai trabalhar cada vez mais pra extrair energia térmica do ar externo. O COP cai drasticamente. É física básica, não é bug do aparelho.
Eu já perdi a conta de quantas pessoas me procuraram achando que o ar-condicionado estava quebrado quando na verdade ele simplesmente não conseguia extrair calor suficiente do ar seco de inverno. A solução não é conserto. É mudar o modo ou aceitar que, naquela temperatura, o aparelho funciona como um aquecedor resistivo de 1000 a 1500 watts no máximo, dependendo do modelo.
Instalando ar de janela quente e frio corretamente
Antes de falar de instalação, deixe claro algo que poucos dizem: a maior parte dos modelos quente/frio de janela tem eficiência muito inferior aos splits convencionais. Um bom split tem COP na casa de 3,5 a 4,0 no modo bomba de calor. Um ar de janela desses mal chega a 2,0 em condições boas, e cai pra perto de 1,1 em temperaturas abaixo de 7 graus. Você tá basicamente pagando uma conta de luz maior pra obter o mesmo aquecimento que um aquecedor resistivo de mesma potência forneceria, só que com a vantagem de também gelar quando necessário. Dito isso, a instalação pede atenção. O gabinete precisa ser selado perfeitamente no caibro da janela. Qualquer fresta de 2 milímetros deixa entrar ar externo aquecido pelo próprio aparelho, reduzindo a eficiência em até 15 por cento. Eu usei espuma de poliuretano expandida nas laterais e vedações de borracha EVA na parte inferior. Custou menos de vinte reais e fez uma diferença mensurável na conta de luz no primeiro mês.
O dreno também merece cuidado. No modo frio, a umidade condensada escorre para fora. No modo quente, o ciclo inverte e pode haver condensação interna que precisa drenar. Se o aparelho estiver levemente inclinado pra dentro, a água escorre pra sua casa. Incline cerca de 5 milímetros pra frente (lado de fora) e use o ralo interno se houver, ou deixe escorrer por um mangotinho direcionado pra fora. Outro detalhe prático: a peneira anti-insetos. Muitos modelos vêm com ela, mas poucas pessoas verificam se tá limpa. Uma peneira entupida reduz o fluxo de ar em até 30 por cento, e o evaporador pode congelar mesmo no verão porque o refrigerante não tá circulando corretamente. Limpe a cada quinze dias durante o uso intensivo. Leva dois minutos.
Se você mora em região de inverno rigoroso — tipo sul do Brasil com geadas frequentes — eu recomendo não depender exclusivamente do modo quente desse aparelho. Ele funciona, mas o conforto térmico é inferior e a conta de luz sobe rápido. Um aquecedor a óleo ou um ventilador com resistência dedicada, ou melhor ainda, um split inverters com bomba de calor de verdade, entregam melhor desempenho nessas condições. O ar de janela quente e frio é uma solução razoável pra climas amenos, onde as temperaturas não caem muito abaixo de 10 graus, ou pra quem precisa de resfriamento na maior parte do ano e quer apenas um suplemento de aquecimento esporádico. Também preste atenção na carga de refrigerante. Modelos mais antigos usam R-22, que tá sendo graduativamente banido no Brasil. Se seu aparelho já tem uns oito anos e começou a perder capacidade de aquecimento sem motivo aparente, pode ser simplesmente vazamento de gás. Recarregar R-22 hoje em dia sai caro e é proibido produzir o gás novo. Nesse caso, considere a troca por um modelo com R-410A ou R-32, que são muito mais eficientes e têm desempenho de aquecimento significativamente melhor em baixas temperaturas.
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O filtro de pó que você limpa toda semana também é importante pro modo quente. Ar seco de inverno carrega bastante poeira fina, e um filtro sujo restringe o fluxo de ar tanto no evaporador quanto no condensador, que nos dois modos estão no mesmo lado interno do gabinete. Substitua o filtro a cada três meses se não conseguir limpar profundamente, porque a camada de poeira fininha que entra nas fibras não sai só com aspirador. Se o aparelho faz muito barulho no modo quente e você acha que tá estranho, calma. O ventilador do condensador gira na mesma velocidade independentemente do modo, mas no inverno o ar externo é mais denso, o que gera um pouco mais de ruído aerodinâmico. Não é defeito. Se o ruído for diferente do habitual — tipo um assobio agudo ou batidas metálicas — aí sim, verifique se há algo obstruindo a tubulação ou se o compressor precisa de manutenção.
Mantendo o aparelho funcionando bem por anos
Verificação anual antes do verão: limpe as aletas do condensador com um jato de água pressão baixa, verificando se não há deformações nas lamelas. Se estiverem amassadas, use uma ferramenta de alinhamento de aletas ou um pente específico. Custa quinze reais em qualquer loja de materiais para refrigeração. Usar palito de dente ou chave de fenda estraga as aletas e reduz o fluxo de ar permanentemente. No modo quente, verifique a operação da válvula de quatro vias. Ela é o coração da inversão de ciclo. Se estiver travada parcialmente, o aparelho pode ligar, o compressor funcionar, mas não aquecer nem gelar direito. O sinal sonoro vindo da válvula é um clique metálico breve a cada transição de modo. Se você não ouvir esse clique quando mudar de frio pra quente ou vice-versa, a válvula pode estar com defeito elétrico ou mecanicamente travada. Troca dela varia de trezentos a seiscentos reais dependendo do modelo, mais a mão de obra.
Uma coisa que quase ninguém comenta: a posição do termostato. Nos modelos de janela, o sensor de temperatura geralmente fica dentro da unidade, medindo o ar de retorno. Se a instalação não for feita com cuidado, o aparelho pode ressoncir o próprio ar já tratado. Um ar quente quente saindo e sendo sugado de volta pelo sensor faz o compressor desligar precocemente, criando ciclos curtos que desgastam o componente e reduzem a eficiência em até 20 por cento. Certifique-se de que o duto de retorno de ar está livre de obstruções e que a circulação interna está correta. Se o aparelho está com mais de dez anos e você tá considerando manter só no modo frio, saiba que a eficiência dele provavelmente caiu 15 a 20 por cento desde a fabricação. Refrigerante degradado, óleo envenenado, aletas sujas e isolamentos térmicos internos comprometidos contribuem pra isso. Um aparelho novo da mesma potência consome cerca de 30 por cento menos energia no mesmo cenário. O investimento se paga em dois ou três verões se você usar bastante o resfriamento.
Para quem mora em apartamento e a janela não permite instalação padrão, existem modelos de janela com kit de adaptação pra esquadria de alumínio. Mas o isolamento acústico e térmico nesses kits nunca é tão bom quanto numa instalação direta em madeira ou alumínio com vedação adequada. Se o barulho da rua já é um problema, essa solução vai amplificar a questão. Nesses casos, um split wall mount é mais indicado, mesmo que precise perfurar a parede. E sobre a conta de luz: modelo de 12000 BTUs no modo frio consome em média 1000 a 1200 watts em plena operação. No modo quente, depende muito da temperatura externa. Em 15 graus externos, pode consumir cerca de 900 watts e entregar 2500 watts de calor (COP de 2,8). Em 5 graus, o consumo sobe pra 1100 watts mas a potência térmica cai pra 1300 watts (COP de 1,2). São números aproximados que variam conforme a marca e o modelo, mas dão uma ideia clara do que esperar numericamente.
Se você tem dúvida sobre qual modelo comprar, procure pela etiqueta Procel ou pelo selo Selo INMETRO de eficiência energética. Evite os que não têm classificação, porque muitas vezes são produtos de baixa qualidade com componentes internos duvidosos. A diferença de preço é pequena e o risco de problema garantido é grande. Cuidado também com a potência elétrica da sua instalação. Esses aparelhos exigem tomada dedicada de 20 ampères na maioria dos modelos de 12000 BTUs ou mais. Se você ligar num circuito compartilhado com outros aparelhos, o disjuntor vai disparar frequentemente. E se a fiação for mais fina que 2,5mm², o aquecimento do cabo pode derreter a isolação com o tempo. Me deparei com um caso assim: a casa tinha fiação de 1,5mm² e o ar de janela quente e frio ficou ligando e desligando sozinho após três meses, com cheiro de isolante derretido perto da tomada. Substituir a fiação e colocar disjuntor adequado resolveu, mas o prejuízo foi maior do que se tivesse instalado certo desde o início.
Manutenção preventiva simples rende mais do que a maioria imagina. Limpar o filtro semanalmente no verão, a cada duas semanas no inverno. Verificar as vedações laterais do gabinete a cada três meses. Limpar as aletas do condensador uma vez por ano com água e escova macia. Anotar a temperatura de saída de ar pra ter baseline e perceber quando o desempenho começa a cair. Essas coisas parecem óbvias, mas são justamente as que fazem a diferença entre um aparelho que dura cinco anos e um que dura dez.