O que é A Forma da Água e por que falar disso
A Forma da Água é um filme de 2017 dirigido por Guillermo del Toro, estrelado por Sally Hawkins e Doug Jones, com roteiro coescrito por del Toro e Vanessa Taylor. O longa se passa em 1962, nos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, e conta a história de uma mulher silenciosa que trabalha como zeladora em um laboratório governamental secreto e desenvolve um vínculo emocional com um anfíbio humanoide mantido como objeto de estudo. O filme ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2018. Vou listar aqui o que eu realmente considero útil sobre esse filme, porque muita gente fala dele como se fosse apenas um conto de fadas escuro, e não é bem assim. Tem camadas técnicas e narrativas que valem a pena entender.
a forma da água filme: os elementos que fazem o longa funcionar
O primeiro ponto que precisa ficar claro é que del Toro não está fazendo um romance comum. Ele está construindo uma fábula visual, algo próximo do conto de fadas europeu antigo, mas colocado dentro de um contexto político muito específico. A Guerra Fria não é só pano de fundo. Ela estruturalmente determina quem tem poder, quem não tem, e como o sistema pune quem vive nas bordas. O personagem de Elisa, interpretado por Sally Hawkins, não fala. Isso é uma escolha narrativa consciente. Del Toro disse em várias entrevistas que o silêncio dela era essencial para criar empatia sem linguagem. A performance depende quase inteiramente da linguagem corporal, dos olhos, da respiração. Hawkins passou meses treinando com diretores de teatro mudo e com dançarinos antes de começar as gravações. O resultado não é perfeito, mas é impressionante.
O anfíbio, interpretado por Doug Jones, é outro ponto técnico interessante. Jones nunca saiu do maquiagem durante as gravações. As sessões duravam entre quatro e cinco horas só para maquiagem, e às vezes chegavam a seis. Não havia atalho. O traje pesava cerca de 18 quilos. Isso significa que cada movimento que você vê na tela foi feito por alguém segurando um peso absurdo, sob calor extremo, por horas. O desempenho físico é real. A trilha sonora de Alexandre Desplat merece atenção separada. O tema principal usa um mecanismo de repetição variação, quase um padrãoOBO que se transforma ao longo do filme. Cada vez que o relacionamento entre Elisa e o Anfíbio avança, a música muda sutilmente de tom e ritmo. Isso é construção narrativa musical, não apenas acompanhamento. Pessoas que não notaram isso na primeira sessão costumam perceber na terceira ou quarta.
Um problema que eu identifiquei quando analisei o filme com mais cuidado: a estrutura narrativa segue um padrão muito clássico de herói, mas del Toro Inverte os arquétipos de forma interessante. O vilão, interpretado por Michael Shannon, não é um personagem malvado no sentido tradicional. Ele é um produto do sistema que ele representa. Shannon construiu o personagem a partir da ideia de um homem que não entende por que as pessoas ao seu redor não estão felizes com o status quo. Essa escolha de atuação é o que torna o antagonista memorável. Outra coisa que as pessoas costumam perder: o design de produção do filme é propositalmente artificial em muitos momentos. Os sets foram construídos com cores saturadas, texturas que remetem a palcos de teatro. Isso cria uma sensação de irrealidade controlada, como se o espectador estivesse assistindo a um conto que existe dentro de outra dimensão. Del Toro é muito claro sobre isso. Ele citou influências de Fritz Lang, de Busby Berkeley, e do cinema expressionista alemão.
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O filme tem uma crítica social direta que às vezes fica submersa. A cena em que o personagem de Richard Jenkins é confrontado pelo sobre suas escolhas morais é um dos momentos mais densos do longa. Jenkins disse depois que essa era a cena que mais gostava de atuar, porque o texto parecia simples à primeira vista, mas carregava todo o peso ético do filme. Se você quer ver o filme pela primeira vez, recomendo assistir em tela grande sempre que possível. A cinematografia de Dan Laustsen merece isso. Cada quadro foi cuidadosamente composto com atenção especial à relação entre luz e sombra, algo que se perde em telas pequenas. A versão em Blu-ray contémMaking-of extenso que complementa bem a experiência.
O box office do filme foi de aproximadamente US$ 195 milhões contra um orçamento de US$ 19 milhões. Isso coloca A Forma da Água entre os filmes mais rentáveis da carreira de del Toro, superando até mesmo O Labirinto do Fauno em retorno relativo. O sucesso de bilheteria ajudou a validar o gênero de fantasia dramática no cinema mainstream americano, algo que poucos achavam possível naquela época.
Pontos importantes para quem quer analisar o filme
Não existe uma análise definitiva de A Forma da Água. Qualquer pessoa que afirmar o contrário provavelmente está vendendo algo. O que existe são camadas de leitura legítimas: política, gênero, sexualidade, raça, ecologia, mitologia. O filme suporta todas essas leituras sem se contradizer. Uma curiosidade técnica: o som na mistura final do filme foi feito usando técnicas de som espacial, algo relativamente novo para o cinema convencional. O efeito cria uma imersão que muitos espectadores sentem sem conseguir nomear. Se você notar que algumas cenas parecem "cercar" o espectador com áudio, isso não é percepção subjetiva. É uma escolha técnica real.
O filme foi rodado predominantemente nos Estúdios Pinewood, no Canadá, com sets construídos especificamente para o projeto. A piscina usada nas cenas aquáticas foi construída sob medida e continha cerca de 400 mil litros de água. Doug Jones passou horas filmando sequências debaixo d'água, muitas delas sem dublê, o que explica a naturalidade dos movimentos na água. Se você está estudando o filme para um trabalho acadêmico ou para análise cinematográfica, recomendo começar pela relação entre os personagens secundários e como eles espelham diferentes facetas da sociedade retratada. Giles (Richard Jenkins) representa a marginalização por orientação sexual. Zelda (Octavia Spencer) representa a marginalização racial. Strickland (Michael Shannon) representa a opressão institucionalizada. Cada um desses personagens tem um arco completo dentro do filme.
O final do filme é intencionalmente ambíguo em alguns aspectos. Del Toro deixou claro que não queria uma resposta fechado. A ideia era que o espectador saísse do cinema com perguntas, não com respostas prontas. Isso gera discussões produtivas, mas também frustração para quem busca conclusões lineares. Ambas as reações são válidas.